REVISTA DE COMUNICAÇÃO – Ano 14, Número 54, 1998

O nome é Sandra 

Passarinho é apelido

A moça é uma verdadeira águia do telejornalismo. E passarinho – quem diria! – é o apelido carinhoso que ganhou dos colegas de trabalho quando ainda estagiária do Jornal Nacional. "Quem é aquela menina baixinha, de olhar tão compenetrado, que anda pra cima e pra baixo, como um pardal equilibrado num fio?" Hoje, todos sabem: é Sandra Passarinho, a repórter espetacular.

O sobrenome verdadeiro? Absoluto segredo profissional. Intui-se que deva ser um daqueles sobrenomes quilométricos, com mais consoantes que vogais, já que é filha de imigrantes lituanos radicados no Rio de Janeiro. Seja como for, é bom que se esclareça de uma vez por todas que ela e seu xará incidental, o ex-ministro Jarbas Passarinho, nunca trocaram palavra, nunca se viram pessoalmente. Excluam-se, portanto, as suspeitas de apadrinhamento. Sandra é considerada a Oriana Falacci da imprensa brasileira por méritos próprios. Aprendeu a voar sozinha, como é costume entre as aves rapaces de sua raríssima categoria.

Competência, segurança, credibilidade. Não há como vê-la em ação sem que de pronto se identifique essa tríade básica de virtudes. O estilo low profile, a contida agressividade, a coragem de enfrentar qualquer barra assim na terra como no céu, também contam pontos preciosos. Isso, é claro, sem falar do inglês perfeito, para Sherlock Holmes nenhum botar defeito e uma cultura literária que, mamma mia, vou te contar!

Encontrá-la é fácil. Basta seguir o rastro da notícia sensacional. Sandra "furou" a Revolução dos Cravos em Portugal, cobriu a assinatura do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, as eleições na França, o Referendo sobre Aborto na Itália, os Anos de Chumbo das Brigadas Vermelhas, viveu a estimulante experiência de ser pega de surpresa na linha de fogo entre o IRA e a polícia britânica, conheceu a Espanha de Franco, visitou a miséria brasileira – personificada na triste "família-tatu", que vive num buraco entre a estação Maria da Graça do metrô carioca e a linha de trem da Central –, sobrevoou a Amazônia de cabo a rabo a bordo de um teco-teco monomotor, etc, etc, etc...

Fez, e passou, em três vestibulares. O primeiro, em 1969, para o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, QG da intelligentzia carioca pós-Golpe Militar. Que deu em nada: na mesma época a faculdade foi fechada pela repressão. No ano seguinte, prestou vestibular para a ECO. Mas acabou desistindo no quarto período. O curso era péssimo. Além disso, Sandra já trabalhava na Rede Globo e não tinha paciência para estudar a teoria de uma prática que, de resto, já exercia.

"Não sou favorável às faculdades de Comunicação. Ninguém aprende a ser jornalista na faculdade. Uma das coisas que mais me decepcionou no tempo em que fiz o curso de Comunicação Social é que não havia a cadeira de Português. Por-tu-guês! Dá para imaginar um curso de Comunicação que não ensine português?"

A solução: "Eu acho que deveria haver uma instituição, uma fundação, algo entre universidade e empresa, que preparasse efetivamente o profissional para o mercado de trabalho. Não se cria jornalista em banco escolar."

A essa altura, a pergunta tradicional, inevitável: "Que conselhos você daria para um estudante de Comunicação que desejasse seguir carreira no telejornalismo?" Sandra sorri e responde, de brincadeira: "Se conselho fosse bom eu não dava, vendia". Depois, séria: "Tem que ler, se interessar pelas coisas, estar com a antena ligada para a vida. Se você sentir que o curso de Comunicação não está bom, estude por conta própria. O aluno tem que sair fora do currículo, viver a sua própria experiência. O jornalista é, antes de tudo, um curioso. Sem curiosidade, não dá."

A passagem da Sandra-estudante-de-Comunicação para a Sandra-repórter-global aconteceu mais ou menos como num passe de mágica: era um tempo em que, em matéria de jornalismo televisivo, se amarrava cachorro com lingüiça e a Globo, por incrível que pareça, ainda aceitava estagiários não remunerados. Sandra se apresentou e acabou ficando. No princípio, o osso duro de todo "foca", que é exatamente onde a maioria desiste: separar telex, fazer escuta de rádio, quebrar os galhos dos outros. Depois, uma ou outra matéria, para ir se acostumando.

Sandra não se lembra da primeira reportagem. Quando deu por si, viu-se ela, o câmera e um engenheiro civil a bordo de uma gôndola de obra, a mais de 700 metros de altura, suspensa por um cabo de aço, a pretexto de noticiar as obras de contenção nas encostas do Corcovado. Mas, nessa época, já era repórter veterana.

O terceiro vestibular para a Faculdade Hélio Alonso também não vingou em diploma. Em 74, Sandra foi nomeada correspondente da recém-instalada sucursal da Globo, em Londres, e teve que abandonar a faculdade. Coisas da vida...

O tempo na Europa foi a consolidação da superjornalista. Sandra testemunhou, ao vivo e a cores, os fatos mais importantes da tumultuada década de 70. Viveu o que já se sabe. Está nos livros. Entre mortos e feridos, salvou-se incólume. Mas a lembrança mais querida, mais recorrente, é da Revolução dos Cravos, em Lisboa: "Nunca vira uma manifestação popular tão intensa quanto aquela. Um milhão de pessoas nas ruas! Na época eu estava convicta da legitimidade do movimento. Mas, a medida em que fazia a cobertura e me enfronhava no assunto, percebia que aquilo não foi uma revolução e sim um golpe militar. E de militares despreparados, o que era ainda pior." Mas não duvidem que Sandra ainda guarda, renitente, um velho cravo para si.

Ser repórter especial da Globo durante o AI-5 era tarefa para quem tem estômago forte. Nem tanto no caso dela, então uma das editoras do extinto Jornal Internacional, apresentado por Heron Domingues. Como o noticiário ia ao ar tarde da noite, era menos controlado. Sandra tinha, portanto, alguma liberdade e, vez por outra, colocava as manguinhas de fora. Mesmo assim, conheceu o que é depender da censura – sempre lenta e burra –, para soltar as suas matérias. Ela conseguiu cobrir relativamente bem o golpe contra Allende, no Chile, graças ao horário tardio do JI, mas também já amargou o dissabor de ver algumas de suas matérias mutiladas. E isso mesmo após a Abertura...

Ela não nasceu para ser chefe. Non Duco, Ducor: "Não sou diretora de nada. E nem quero ser. Esse negócio de carreira vertical não é para mim. A coisa mais comum no Brasil é ver um bom repórter ser promovido a mau chefe de reportagem ou um bom pauteiro a mau chefe de redação. Minha carreira é horizontal. Sou repórter, editora eventual, e quero me aperfeiçoar cada vez mais nessas funções."

Sandra faz questão de explicar a sua idéia particular de reportagem especial, bem diferente daquilo que realmente faz no Núcleo de Reportagens Especiais da Rede Globo: "Nos EUA e na Europa, a reportagem especial é analítica, matéria de aprofundamento de um determinado assunto. Em suma, trata de algo menos perecível que o noticiário. Bem diferente, portanto, das reportagens dias 'especiais' que fazemos para o JN, o Jornal da Globo e o Hoje. No telejornal diário ainda não há um espaço reservado exclusivamente para esse tipo de reportagem. O que é uma pena."

Tem verdadeiro horror à excessiva glamorização do telejornalismo, que considera uma indesejável influência norte-americana. Neste caso, é mais Fátima Bernardes do que Valéria Monteiro: "É óbvio que a televisão tem um componente diferenciador em relação à imprensa escrita que é o peso da imagem, da presença do jornalista. Ao mesmo tempo que você tem que ser low profile, também tem que ser presente. Mas beleza, por si só, não põe mesa."

É também importante que se aprenda a distinguir a diferença entre apresentador e repórter. Sandra ensina: "O repórter de televisão é o intermediário entre a notícia e o telespectador. Ele não pode aparecer mais do que a informação que veicula. A notícia tem prioridade. Quanto mais ele consegue chamar atenção para o fato, quanto melhor esclarece e quanto menos aparece, melhor. O mesmo não ocorre, por exemplo, com um apresentador do Fantástico que deve ter, necessariamente, uma presença marcante. Mas é bom lembrar que o Fantástico não é, a rigor, um telejornal..."

Defende, porém, um "estilo pessoal" para os apresentadores de telejornais e acha que a Globo anda excessivamente pasteurizada: "Os apresentadores do Jornal Nacional, por exemplo, não tem estilo. São excelentes profissionais, mas não podem sair muito daquilo. São pagos para realizar a tarefa que a empresa exige; nem mais nem menos. E, como profissionais, fazem o que lhes é ordenado."

Admira alguns "achados" de outras emissoras: "O Aqui Agora (SBT) e o Documento Especial (SBT), por exemplo, introduziram novidades importantes, como a reportagem policial em ação. São programas ágeis, com uma temática muito mais solta do que, por exemplo, a do Globo Repórter. A Tv Globo ateve-se demais à sua fórmula, porque foi – e ainda é – uma fórmula vencedora. Mas ficou muito presa a ela. Recentemente, o Aqui Agora chegou a balançar os ponteirinhos da Globo, que andou fazendo certas mudanças na reportagem local de São Paulo. A ordem era adotar um estilo mais solto, mais informal... O Aqui Agora só peca pelo conteúdo. Se eu fosse diretora de um programa assim e tivesse liberdade para trabalhar, gostaria de fazer algo inédito na Tv brasileira: uma espécie de Última Hora eletrônica, um espaço popular de qualidade. Mais conteúdo social e menos baixaria."

Sandra está solteira e não teve filhos do primeiro e único casamento: "Foi um desencontro. Numa certa época, meu marido queria filhos e eu não. Depois, foi o contrário. Acabamos não tendo nenhum." Obviamente, o jornalismo também pesou: "Chegou uma hora em que tive que optar. Então, optei pela carreira."

A menina que participou da Passeata dos Cem Mil e que lia Marx como as de hoje lêem As Brumas de Avalon, anda menos radical e não tem vergonha de se declarar uma "liberal assumida". Afinal, ninguém passa a vida conhecendo as duas faces da moeda sem acabar se convencendo de que, realmente, a moeda tem dois lados: "Antes, eu era ou preto ou branco. Com o tempo, aprendi a ver as nuances das coisas. A radicalização ideológica faz com que o indivíduo veja o mundo de uma maneira muito estreita. Hoje em dia, não sou atrelada a nenhum partido. Tenho, inclusive, sérias dificuldades para votar."

Mas é prudente advertir que o liberalismo de Sandra é polêmico. Tipo Pós-Neo-Liberalismo dos Anos 90 e tal. Exemplos? Os que seguem:

"Ainda vamos sentir saudades dos tempos da Guerra Fria. O mundo está muito mais complicado do que já era, cheio de rixas e grupelhos, um desencontro total. E a ameaça nuclear está mais presente do que nunca. As grandes potências estão se livrando gradativamente de seus arsenais. Mas nada impede que um maluco qualquer mande NY pelos ares. Basta ter um bocadinho de urânio enriquecido e puft!..."

Ou então: "O Brasil perdeu o bonde da história em coisas fundamentais. A saúde, a educação e a moradia estão esquecidas. Não se constrói um país moderno sem estes três setores bem desenvolvidos. Precisamos de uma reforma agrária, uma reforma sanitária e uma reforma educacional. Senão a coisa não vai."

Neste ponto, ela pára e encara os entrevistadores – subitamente transformados em entrevistados – com o seu olhar de rapineira eletrônica. Não resta outra opção: "Tomara que vá, Passarinho. Tomara que sim..."

 

▲Topo